Senegal Parte 3: Mbour, Kaolak & Toubakouta

Na noite anterior mandei um e-mail pra Saide dizendo que ia sair de Dakar de manhã cedo em direção à Mbour. Ela já tinha me dito o nome do hotel que ela tava, então o que eu pensei foi: “vou pro hotel dela e no dia seguinte vamos juntos pra Toubakouta”. De manhã mandei outro e-mail pra ela avisando que ia sair e tal, então acabei saindo antes que pudesse receber qualquer resposta dela. Antes de sair do hostel procurei saber quanto custava o 7place (porque, como diz a Saide: “no voy a dejar que me jodan!”) e pronto. Chegando na garagem (que em Dakar é bem grande) perguntei prum moço onde eu encontrava o 7place pra Mbour. Ele me indicou um outro senhor que ia me levar até lá, então enquanto andávamos conversamos um pouco. Ele me perguntou como poderia ir pro Brasil, se era fácil conseguir um emprego de motorista e tal (imigrar pro Brasil parece ser a nova tendência no Senegal). Dai eu me peguei dando uma mini consultoria sobre lei migratória brasileira, expliquei que era difícil, que as únicas maneiras que ele tinha eram de ter uma prole brasileira ou casar com um/a cidadão brasileiro. Foi quando ele começou a me perguntar se era fácil conseguir uma esposa brasileira… ai o cara o 7place começou a chamar pra sair antes que eu tivesse tempo de dizer que pedir refúgio também era uma possibilidade de se manter documentado. Enfim, hasta amigo.

Como de hábito, já tinha aberto o google maps no hostel e colocado o trajeto até o hotel em Mbou, pra saber se valia à pena pedir pra descer do 7place antes de chegar na próxima garagem. Sim, valia à pena. A viagem é bem curtinha e dessa vez não teve nenhum contratempo, nenhum carro quebrado ou qualquer outro tipo de problema. Em 1h30 estava no ponto que deveria descer, na beira da estrada e esquina com uma outra avenida que termina em Saly (povoado de praia super turístico, vizinho à Mbour). O google me dizia que do ponto que eu desci até o meu hotel dava uns 25min andando (o que na minha velocidade dá 10-15min). Beleza, então tá tranquilo, tá favorável… só que – mais uma vez – não! Gente, o google não é tão preciso assim, então a localização no mapa estava um pouco errada, mas pelo endereço sabia que era ali pela região. Fato é que eu fiquei rodando e rodando e rodando, perguntando pra pessoas na rua e perguntando de novo. Rodava, rodava, rodava, liguei pro hotel zilhões de vezes e ninguém atendia! Gente, eu tava dando voltas no mesmo lugar por umas 3h (SIM: TRÊS HORAS!!!!) e não encontrava a porcaria do hotel. Até que… CONSEGUI!!!! Cheguei lá como, né, queria esganar a menina da recepção que não atendia o telefone.

Quando entrei no meu e-mail tinha uma mensagem da Saide dizendo que tinha ido pra Toubakouta porque teve problemas com o hotel dela em Mbour. O que acontece é que na noite anterior ela mudou pra um hotel mais perto da praia e resolveu ir antecipadamente pra Kaolak. Eu que já estava cansado das horas que fiquei vagando no sol com mochilão nas costas preferi ficar em Mbour mesmo e viajar só no dia seguinte.

O hotel era no município de Mbour, mas na entrada de Saly, então depois de deixar minhas coisas no hotel eu resolvi andar na beira da praia, ver o mar. hahahaha, mais uma vez eu não tinha a menor noção de onde estava! Antes eu só tive que passar no super mercado pra comprar repelente e protetor solar (crianças, se vocês forem ao Senegal não sejam como eu e tomem as pílulas pra evitar a malária, tá!). Já que meu protetor tinha acabado e eu tava indo pro sul, que é bem mais infestado de mosquitos, por ser área de mangue. Dito e feito fui pra Saly.

Chegando na orla… cade a orla??? Não tem! O que existe são resorts que cobram pra vc ter acesso à praia. Fiquei puto, então resolvi andar pelo vilarejo, que era o que me restava, já que no dia seguinte ia pra Toubakouta. O vilarejo é simpático e você vê alguns turistas, que se atrevem a sair dos resorts, andando por lá. Tem umas pessoas muito pedantes insistindo pra você comprar, mas nada pior do que em outros lugares. Um carinha começou a me seguir na rua e a insistir pra que eu fosse ver a loja dele. Ele foi tão tão insistente que eu terminei cedendo, mas não sem antes deixar bem evidente que não ia comprar nada, que não tinha dinheiro.

Chegando na loja tinham mais uns 5 ou 6 homens por lá, uns dois fazendo artesanato e os outros ali parados. Então eles perguntam meu nome e eu super desconfiado queria saber o motivo. Não me disseram, mas eu pensei “ah, já to aqui, saberem o meu nome é o de menos”. Antes de tudo, eu falei pra eles que não tinha dinheiro e que não ia gastar nem um centavo ali. Daí eles ficaram meio putos e se colocaram meio agressivos comigo. Quando eu vi tava eu rodeado por 6 homens e gritando comigo, então eu respondi: “não te conheço, nunca te vi antes e não to colocando todos os senegaleses no mesmo saco! Só to avisando que não vou gastar nenhum centavo, pra que depois isso não seja uma surpresa, ok?! Se você quiser me contar historinha vai ser porque de coração você quer fazer isso e não porque quer o meu dinheiro, ok?!”. Dai ele começou a me contar uma histórias sobre o artesanato e tal. Assim, até era interessante, mas apenas mais do mesmo que eu vi e ouvi em Saint-Louis e em Dakar.

Perdi a paciência, agradeci à eles e disse que ia embora, foi quando ele quis me dar um pingente de madeira (num cordão) com o meu nome escrito. Claro que eu recusei, mas eles começaram a insistir dizendo que eu tinha que pagar. Foi quando eu disse que não ia pagar nada e nem levar o pingente, porque eles escreveram meu nome lá sem me avisar. E que se tivessem avisado ia falar para não fazerem! E sai andando sem olhar pra traz. Um deles ficou me seguindo e insistindo preu pagar pelo “tour”. Ah, muita cara de pau, gente! Ele continuou me seguindo querendo me mostrar o caminho de volta (como se eu já não soubesse, né) e até apelou me oferecendo prostitutas. Gente, é triste a situação… é um vilarejo que vive do turismo baseado em resorts onde os branco estão isolados. Me parece que é um turismo que pouco deixa pra cidade e pra população, além de você ver muitos desses tiozões brancos nojentos com umas adolecentes senegalesas (que possivelmente são garotas de programa).

Voltei a andar e resolvi parar num lugar pra trocar dinheiro. Depois de negociar a taxa de câmbio (sim, no Senegal tudo é negociável) dois carinhas que estavam ali começaram a puxar papo. Eles perguntaram de onde eu era, então eu sugeri que eles adivinhassem (hehe). Como eu falo francês, eles tentaram todos os países francófonos europeus (França, Suíça, Bélgica), ai disse que eu era brasileiro. Pronto, depois de falarem o nome de 700 jogadores de futebol que eu não conhecia (porque sim, sou brasileiro e não, não ligo pra futebol) eles se propuseram a me mostrar uns lugares legais, segundo eles pra que depois eu voltasse pro Brasil e recomendasse que o Senegal pras pessoas. Rodamos um pouco e paramos num baobab, que eles me disseram pra colocar a mão e fazer um desejo. Eu já tava achando eles meio estranhos, quando chegou uma mulher e começou a discutir com eles. Dai eles disseram que tavam só mostrando o vilarejo prum turista do Brasil. Foi quando a mulher, que eles disseram ser nigeriana, perguntou: “hablas español?”. Eu disse que sim e percebi que ela queria me dizer alguma coisa, só que ela não falava nada de espanhol, rs. Ai perguntei em inglês e ela me disse em espanhol: “vayas antes que te roben”. E eu bati uma reta e fui embora. Dai eles me seguiram e começaram a dizer que eu tinha que pagar pelo tour. Gente, de novo essa história… se você não saber dizer “não” vai aprender rapidinho no Senegal, rs.

À essa altura eu já tava puto que não conseguia andar em paz no vilarejo. Nunca me senti tanto como um dólar ambulante! Resolvi voltar pro hotel, já que no dia seguinte iria pra Toubakouta, via Kaolak e com troca de 7place. Mais uma vez, no caminho pro hotel, me ofereceram prostitutas… gente que lugar horrivel é Saly!!! Não percam o seu tempo com essa cidade. Fiquem em Mbou ou até passem batido pra outro lugar.

No dia seguinte acordo cedo, tomo café e vou pra beira da estrada pegar um coletivo (nada mais é do que um taxi compartilhado) até a garagem de Mbour. Claro que eu já sabia o preço que deveria pagar pra chegar em Kaolak e claro também que tentaram me cobrar bem acima. Pero no voy a dejar que me jodan! Na garagem de Mbour tinha uma fumaça negra nos arredores. Eu entrei no carro e tava esperando lotar pra então sairmos. Foi quando a fumaça aumentou muito (muito mesmo!) e as pessoas dentro do carro e ao redor se desesperaram e começaram a correr, como se o fogo tivesse chegando perto. Gente, que desespero que me deu, minha mochila tava em cima do carro e eu subi no teto pra tentar tirar, quando o motorista arrancou. O problema é que todos os outros carros na garagem também arrancaram, então na real ninguém conseguia sair do lugar. Foi uma correria, pânico, gritaria, mas conseguimos sair com vida.

O carro ia pra fronteira com a Gâmbia, mas eu ia ficar em Toubakouta, que é um vilarejo muito pequenininho que fica no caminho. Lá ia encontrar com a Saide, onde íamos explorar o parque do Delta du Saloum. Desci em Toubakouta e mais uma vez o google não é muito preciso pra indicar onde fica o hotel… acabei pegando um mototaxi que me cobrou 300 CFA (± R$ 1,50) pra me levar até o hotel que a Saide tinha reservado, o que é até bem caro considerando a distância percorrida. Cheguei no hotel e lá estava Saide reclamando de alguma coisa no quarto kkkkk (“no voy a dejar que me jodan!”). Gente, como eu ri nessa viagem! Comemos no hotel (grande erro, os preços eram abusivos!) e saimos um pouco pra explorar a cidade enquanto a moça do hotel ligava pro pessoal encarregado dos passeios pelo delta.

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Entardecer na beira do rio

 

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Pier de um dos resorts

O vilarejo é muito pequeninho, então andamos em direção ao rio, onde tinham uns resorts com pier. Entramos em um, demos “bonjour!” pros seguranças na porta e fomos direto pro pier. Deitamos nas cadeiras, tiramos foto, foi ótimo, é muito bonito. Tinham muitos macacos por lá. Depois saimos e continuamos caminhando na beira do rio do lado de fora, quando chegamos em um outro pier de um resort que tinha quartos de casa na árvore. Fomos andando em direção à esse outro pier, quando veio um segurança nos dizendo – em francês – “isso é uma propriedade privada, vocês não podem entrar”. A Saide não fala nada de francês e eu fingi que não tava entendendo nada. O segurança não falava inglês, mas a Saide começou a dizer que o rio era do Senegal e não era propriedade privada coisa nenhuma, que iriamos andar no pier, tirar foto e ninguém podia nos tirar dali. “This is private – e ela apontava pras casas na árvore -, this is Senegal – apontando pro rio!”. Ta certíssima! Já estava entardecendo, então voltamos pro hotel, onde o cara que ia nos explicar sobre os passeios nos esperava.

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“This is private!”
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“This is Senegal!”

Eu sei é que não fomos com a cara dele… então resolvemos não fazer passeio nenhum, tava tudo muito confuso porque os passeios não pareciam nos mostrar exatamente o que queríamos ver. Então decidimos ir para a Gâmbia, estudar tudo direitinho e na volta visitar o delta. Sairíamos no dia seguinte cedo.

Próximo post: Gâmbia e Delta du Saloum.

À toute

Senegal Parte 2: Saint-Louis & Dakar

Depois de um dia inteiro entre a minha casa em Rabat, estações de trem, aeroportos, estrada, eu acordo ao redor de 12h em Saint-Louis. À essa hora o café da manhã já tinha acabado, então vou até a recepção pra ver se conseguia um mapa da cidade. Eis que me deparo com Saide, uma senhora de 72 anos venezuelana/canadense (que mora em Ottawa faz muitos anos) reclamando de alguma coisa do quarto dela. Espero ela terminar para então pedir o meu mapa e, o moço da recepção me aponta pra parede. Era uma ampliação emoldurada de um mapa da cidade, mas assim… não resolvia o meu problema, né! Quando eu pergunto sobre um mapa pequeno pra levar na rua ele me diz pra tentar o office de tourisme da cidade. Eu realmente não tinha a menor noção do que é o Senegal, o garotinho inocente achando que ia conseguir mapa em algum lugar.

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Galeria em Saint-Louis

Saio em direção ao office de tourisme, que é do lado do meu hotel. Claro que eles também não tinham um mapa, mas blz. Eles tinham um livro/guia que na verdade era um mapa enorme mesmo e custava 2.500 CFA (ao redor de R$ 12,50), mas era caro e super inconveniente pra usar na rua. Tudo bem, isso não vai me impedir de conhecer a cidade. Saint-Louis é uma ilha bem pequenininha, com 90% de suas casas em estilo colonial. Saí caminhando aleatoriamente admirando a arquitetura, as galerias de arte (muitos artistas senegaleses expõe suas obras em lojas instaladas nesses casarões), a vista pro continente, etc. A cidade é realmente uma gracinha, só é um pouco suja e cheio de pó, já que poucas são as ruas asfaltadas e com calçadas, no geral a gente anda na terra batida mesmo. Durante essa minha caminhada algumas pessoas me ofereceram passeios para visitar o parque nacional de Djoudj, o parque nacional Langue de Barbarie, noite beduína no deserto, entre outros passeios. Várias opções, mas o que me interessava de verdade era o Djoudj, que é um parque famoso pela observação de pássaros, com colônias de pelicanos e flamingos.

Não fechei nada com ninguém, já que os preços são por carro e pensei em chamar a venezuelana/canadense pra ir comigo, já que cada um ia economizar 50%. Peguei vários telefones e, ao voltar pro hotel, já dei de cara com ela na recepção. Ai fui propor de irmos juntos e tal, foi quando ela me disse: “ah, eu já ia te propor o mesmo!”. hahahahaha, telepatia já ta funcionando ai. Discutimos sobre os passeios e as possibilidades e saímos para o 0ffice de turismo só pra conferir com eles também sobre os mesmos passeios. Nos disseram que eles tinham já duas pessoas para o dia seguinte para o parque nacional dos pássaros (Djoudj). Maravilha, seriamos 4 e o preço sairia pelo mesmo q com guias independentes. Como esse era o escritório oficial achamos que seria mais seguro e mais confortável, não é mesmo? Você está errado! Gente, era um carro muito, muito, muito velho, desconfortável e sujo. Já fica a dica pra quem for: façam com qualquer guia que encontrarem pela cidade, mas não com o office de tourisme. No dia seguinte saímos às 8:30 para o parque, que fica ao redor de 1h30min de Saint-Louis. Na entrada tem uns lagos e as instalações de um centro de pesquisa, e já começamos a admirar muitos pássaros que voavam e pousavam nas águas e margens dos lagos.

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Colônia de Pelicanos no Parc National des Oiseaux
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Nosso barco cheio de turistas chineses

Seguimos mais um pouco de carro e chegamos onde se pega um barco para fazer uma volta pela lagoa e pelos canais do parque, onde visitaríamos colônias de pássaros. O barco saiu com nós dois, uns poucos franceses e 780mil chineses. Gente, eram MUITOS, achei até que o barco não ia dar conta. Sorte a nossa que não virou, já que no Senegal parece não haver nenhum tipo de controle ou fiscalização/direitos do consumidor. Alguns dos turistas eram muito sem noção! Em determinado momento avistamos um crocodilo, então os guias começaram a manobrar o barco pra conseguirmos vê-los de perto. Foi quando um turista chinês começou a jogar objetos, tentado acertar o animal. Sério, fiquei muito irritado, sujando a lagoa e espantando o animal que tava ali parado!!! O parque é muito bonito e realmente tem muitos pássaros, o problema foi que não vimos nenhuma colônia de flamingos. A Saide logo se manifestou e começou a reclamar com os guias, que alegavam que os flamingos ficavam na Mauritânia e de vez em quando vinham pro lado senegalês. Enfim, vai saber quem estava certo… Voltamos para Saint-Louis e descansamos já que estava bem quente e muito sol.

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Crocodilo

No dia seguinte já poderíamos ter ido embora de Saint-Louis, mas acabamos ficando, então resolvemos visitar a reserva da Langue de Barbarie, que é onde o rio encontra o mar. Não queríamos ir com nenhum desses tours, já que sairia bem caro, ainda mais pra arriscar a vida num desses carros super antigos. Descobrimos que dava pra chegar lá por conta própria, pegando um colectif (que nada mais é do que um taxi coletivo) no continente e em direção à um vilarejo que fica na entrada do parque. Fizemos isso e, por 500 CFA, chegamos na entrada do parque. No vilarejo não se via turistas, e conforme entrávamos no parque víamos muitas pessoas cozinhando e trabalhando ostras pescadas ali mesmo, que é área de manguezal. Andamos um pouco no parque, até o ponto em que precisaríamos pagar 5.000 CFA (± R$ 25) num barco para atravessar para o outro lado. Como o atrativo eram pássaros, que já tínhamos visto no dia anterior, decidimos economizar esse dinheiro e aproveitar essa parte do parque mesmo. Depois de algum tempo voltamos para o vilarejo e esperamos na beira da estrada que algum colectif passasse e nos levasse para Saint-Louis, o que não demorou muito. Chegando por lá aproveitamos pra dar uma olhada no mercado do lado de cá da ponte, depois voltamos pro hotel. Mais tarde saímos para dar caminhar um pouco pela ilha e acabamos encontrando um mini porto cheio de barcos de pescadores e passageiros. Adoramos, tava realmente muito bonito no entardecer e sem nenhum turista.

No dia seguinte saímos cedo para pegar um 7place (uma espécie de taxi/carro coletivo que leva 7 pessoas, usado no transporte entre as cidades do Senegal). Ficamos horas lá, porque eles queriam nos cobrar um preço indevido, então ficamos discutindo com o senegalês. Ele chegou ao cúmulo de apelar pedindo pra um francês branco – que também ia pra Dakar – dizer que 5.500 CFA era o preço com as malas mesmo. Tipo, amigo nós pagamos 4.000 CFA na ida, não é com esse cara branco me dizendo que tenho que pagar 5.000 CFA que você vai me convencer. Enfim, tivemos que aceitar… mas nessa brincadeira perdemos 2 carros (eles só saem quando enchem todos os acentos) e acabamos saindo meio tarde. A viagem, em condições normais dura entre 4h30 e 5h, só que… no meio do caminho o 7place quebrou! Sim, ele simplesmente quebrou e não podia mais prosseguir. O motorista até tentou concertar, mas não teve jeito. Os carros são muito, muito, muito velhos mesmo! Tipo, nem em Cuba eu vi coisa do tipo. Diz a Saide que os carros franceses são uma porcaria, por isso os carros em Cuba (que são americanos) estão em um estado muito melhor. O pior é que o motorista sequer tinha um celular pra pedir socorro. Estávamos literalmente no meio do nada, não tinha nem uma aldeia nas redondezas… um dos passageiros emprestou o próprio celular e, depois de não muito tempo chegou um outro carro que nos levaria até Dakar.

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E o carro quebrou!

Chegando em Dakar foi outro perrengue pra negociar o valor do taxi até o nosso hostel. A rodoviária (na verdade é um estacionamento de 7places) fica meio longe da cidade. Queriam no cobrar um absurdo (se não me engano 3.500 CFA pra ir num colectif!)  e, depois de discutir, discutir e discutir, conseguimos um taxista que nos levaria por um preço justo (3.000 CFA num taxi mesmo). Tudo graças à intervenção de uma senegalesa que veio de Saint-Louis com a gente. Depois de muito tempo, chegamos em Ngor já quase no final da tarde. Fizemos o check-in no hostel e fomos procurar um lugar pra comer.

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Entardecer em Ngor

Já dava pra perceber a diferença entre Saint-Louis e Dakar, que é uma cidade bem grande. Tivemos um pouco de dificuldade de encontrar um lugar pra comer, pq não é do hábito do senegalês frequentar restaurantes, sai muito caro pra eles. Saint-Louis é pequena, mas muito turística, então em momento nenhum tivemos problema pra encontrar restaurantes. As pessoas comem mais em casa – mesmo num bairro de classe média alta, onde estávamos. Fomos em direção à praia, mas tudo o que achávamos era muito, muito caro, então desistimos e resolvemos comer na padaria do outro lado da rua do hostel mesmo. A comida era ótima e tinha um preço ok (não, não é assim tão barato, principalmente comparando a relação qualidade/preço que to acostumado no Marrocos – acho que a salada + shawarma custavam 3.000 CFA, o equivalente a R$ 15). Depois voltamos pro hotel e descansamos o resto do dia.

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Chegando em Goré

No dia seguinte queríamos visitar a ilha de Goré, que fica próxima à costa de Dakar. Os primeiros europeus a chegarem por lá foram os portugueses, mas foram de fato os franceses a construir um posto avançado de comercio de escravos. Para chegar lá, tem que pegar um barco que sai do porto de Dakar. Esperando o próximo, acabamos fazendo amizade com uma senegalesa que disse ter uma loja e um restaurante na ilha. Chegando lá dá pra visitar um museu que explica a historia do trafico negreiro e do papel que o Senegal teve nesse período nefasto da humanidade. Inclusive é possível visitar a maison des esclaves (casa dos escravos), que era onde eles ficavam à espera dos navios que os levariam pra outras terras. A ilha é muito, muito bonita, tipo tudo por lá mesmo!

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Arte nas ruas de Goré

É arborizada, limpa, a geografia também ajuda e ainda tem uma vista incrível de Dakar. É cheia de artistas que expõe e até produzem seu artesanato nas ruas. Só que o clima é realmente muito pesado… não tive nem coragem de entrar na maison des esclaves (casa dos escravos), hoje me arrependo, mas na hora sei lá, não consegui. No final da tarde voltamos para Dakar e fomos direto pro hostel, já que a Saide já tinha reserva em outro hotel onde passaria a noite.

Estávamos combinando de ir para a Gâmbia, só que no caso eu precisaria tirar o visto. Cidadãos canadenses, britânicos, australianos e neozelandeses não precisam, mas quase todo o resto sim. O negoço é que eu não tinha a menor ideia do que precisava pra tirar o visto e ao mesmo tempo tava impossível achar o telefone e o endereço da embaixada na internet. Perguntei no hostel, mas ninguém sabia dizer ao certo. Me falaram que era bem próximo, numa avenida que concentrava muitas embaixadas. Sendo assim, fui até lá e andei tudo, tudo e não encontrei. Foi quando resolvi perguntar pro guarda de uma das embaixadas se ele sabia onde ficava a da Gâmbia, ai ele me disse que era perto do aeroporto. Realmente não era muito distante do hostel, mas era pro lado oposto! Cheguei na embaixada da Gâmbia e a primeira coisa que eu perguntei foi se brasileiros precisam de visto. A secretária me disse que sim, então peguei um papel dizendo tudo o que eu precisava, voltei pro hostel correndo pra arrumar toda a papelada, que incluía um documento escrito de próprio punho dizendo explicando o motivo de não saber a placa do carro que ia me levar pra lá, além de uma reserva de hotel e foto 3×4 (que eu tinha no Marrocos, mas não levei). Consegui tudo e voltei correndo pra embaixada antes que ela fechasse (sabe como é esse povo, o expediente sempre termina super cedo!). Ufa, consegui chegar à tempo, entreguei todos os documentos, meu passaporte e paguei a taxa de 35.000 CFA (gente, uma facada de R$ 175!). Por um momento me deu um medinho de deixar meu passaporte lá, mas que opção eu tinha?

Depois de deixar meus documentos lá a secretária pediu que eu esperasse um pouco na recepção. Eu não entendi nada, já que os documentos já tinham sido entregues e aparentemente estava tudo ok. Depois ela volta e me diz pra ir no segundo andar e entrar na sala do 2º secretário. Eu, retardado, continuei sem entender nada, mas subi. Entrei na sala e sentei na cadeira, quando o cara começou a me fazer umas perguntas com um tom de desconfiança. Ele me perguntou aquele básico: o que eu faço, se sou mesmo brasileiro, o que vou fazer na Gâmbia e bla bla bla. Teve uma hora que ele apontou um erro no preenchimento dos formulários (um deles eu coloquei que o motivo da viagem era turismo e o outro não coloquei nada – tinha que preencher dois formulários idênticos). Tipo, eu tava com pressa, tinha pouco tempo até a embaixada fechar e não tinha como esperar até o dia seguinte, já que ia ser sexta e meu passaporte só estaria livre na segunda ou terça (segundo a própria secretária). Enfim, eu disse que se não tinha problema eu podia corrigir o erro, já que o formulário era um papel bem ali na mesa. Ai ele disse: “claro que você não pode, onde já se viu aplicar pra um visto e mudar as informações no meio do processo?!”. Dai eu disse, desculpa, nunca apliquei pra um visto antes, não sabia. Mentira, mas como não tinha nenhum visto no meu passaporte que tava com ele aproveitei pra mandar essa, né. Dai ele começou a dizer q eu ja viajei bastante e que ele tinha visto o meu passaporte, só que eram apenas carimbos de entrada e saída, realmente não tinha nenhum visto. Ele acabou me pedindo pra esperar lá embaixo com um tom meio agressivo.

Depois de uns 20min esperando, a secretária ficou surpresa ao perceber que eu ainda tava ali. Então ela subiu pra ver se tava tudo certo e se eu podia ir, então me dispensou e me disse pra voltar no dia seguinte ao redor de 12h, mais especificamente antes das 13h. Eu de teimoso cheguei 10:30, não queria perder mais um dia da minha viagem com essa bosta de visto, então achei que chegando cedo. Na verdade eu não tinha nem certeza se eles iam me dar o visto, já que nesse momento conturbado da política na Gâmbia tudo é de se esperar. Depois de uns 15min esperando me devolveram o passaporte com meu visto. Pra não perder o dia, fui caminhar na praia de Yoff, que é um bairro próximo. É um bairro bem senegalês, não tem muitos turistas nem gente branca por lá, então achei bem interessante. A praia fica bem bonita no entardecer, com pessoas jogando futebol, correndo, pescando, etc.

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Praia de Yoff
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Palácio presidencial em Dakar

Era sexta-feira e, ao sair da embaixada peguei um taxi pro centro de Dakar. Chegando lá fiquei caminhando pelas ruas, admirando os edifícios e observando o movimento da cidade. Um vendedor me ofereceu óculos, o que não me interessava, então ele se ofereceu pra me mostrar algumas coisas pelas redondezas. Eu achei ok, então acabei indo um pouco com ele, já que não tava muito pedante. Claro que terminou numa loja da família, onde eles queriam me empurrar todo tipo de coisa, mas também não insistiram e logo eu saí. O vendedor disse que tinha que ir porque era a hora da reza. 95% da população do Senegal é muçulmana e a sexta-feira é o dia que tradicionalmente as pessoas vão para as mesquitas rezar.

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Igreja Maronita

Eu só não sabia que as pessoas rezavam na rua mesmo, digo: no próprio asfalto, onde os carros passam. O que acontece é que a grand mosquée de Dakar não é tão grande assim, então a policia fecha as ruas do centro pra circulação de automóveis, ai as pessoas sentam na rua, em qualquer canto pra rezar. Quando eu percebi não tinha mais como andar, porque estava rodeado de pessoas rezando no chão e não tinha como passar. Foi quando eu vi uma menina cristã sentar em baixo de uma marquise e começar a comer uma tangerina, como quem diz: “não vai dar pra passar por aqui por algum tempo, então vou sentar aqui mesmo”. Em terra de sapo, de cócoras com eles, não é mesmo? Me sentei de baixo da marquise e fiquei esperando. Foi um momento realmente interessante.

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Fiéis rezando em Dakar

Almocei no restaurante do Instituto Francês, que foi recomendado pelo moço do hostel, a comida era boa e um preço ok. Na verdade era meio caro, mas no centro de Dakar tudo é o olho da cara, acho que paguei 4.500 CFA (uns R$ 22,50) numa salada bem servida. Depois fui conhecer o mercado. Se arrependimento matasse… por lá não tinha nada de muito diferente, era apenas mais do mesmo. Além disso, o assédio é tão grande que não dá pra andar tranquilo, sabe? Depois de um tempo desisti do mercado e peguei um taxi até a mosquée de la dignité (mesquita da dignidade), que fica numa em baixo de uma encosta. De lá se tem uma vista muito bonita do atlântico, com a praia e os paredões de pedra. Depois fui andando até o hostel, que não ficava tão longe dali. Chegando lá, mandei um e-mail pra Saide e ela me disse que tinha ido pra Mbour porque não gostou do hotel que tava e resolveu ir embora de Dakar. Ficou meio confuso, já que conversar por e-mail é meio confuso, mas aparentemente ela ia dormir mais uma noite em Mbour, onde eu poderia encontrar-la no dia seguinte para então irmos pra Gâmbia.

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Mosquée de la Dignité (mesquita da dignidade)

No próximo post eu termino a viagem com a saga de se chegar na Gâmbia e da região do delta do Saloun.

À toute!

Senegal Parte 1

Olá pessoas, nas últimas férias eu decidi ir pro Senegal. Sim, Senegal, um país do oeste africano, entre a Guiné-Bissau, Mali, Mauritânia. Quando eu contava pros meus amigos e conhecidos que ia pra lá as reações foram variadas. Muitos diziam “nossa, que máximo”, outros me perguntavam “mas por que o Senegal”. Bom, primeiro de tudo acho que qualquer lugar (ou quase, né?) é digno de ser visitado, você sempre vai ter alguma coisa pra aprender, alguma experiência legal pra viver, não é mesmo? E tem mais, não queria ir pra Europa e também sentia que deveria explorar mais o continente africano. O Senegal me pareceu uma boa opção pelos devidos motivos: é perto do Marrocos e a passagem não era o olho da cara, não exige visto para brasileiros e o custo de vida também não é muito elevado (é similar ao do Marrocos). Eu só fiquei arrasado de não poder visitar o Mali e a Mauritânia, tanto por não ter tempo quanto por motivos de: conflitos armados. Enfim, vamos ao que intressa, não é mesmo?

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Meu dia começa super cedo numa sexta-feira, eu saía do apartamento onde estava e tinha que ir pra Casablanca pegar meu voo. Deixei minhas coisas arrumadas pra minha flatmate italiana levar pro apartamento pra onde ela se mudaria e às 6:30 saio de casa pra estação de trem. De Rabat pro aeroporto de Casablanca é super fácil, basta pegar um trem por 80 DH  (mais ou menos R$ 25) e fazer uma rápida conexão em Casa Port, que você chega literalmente dentro do aeroporto. Era pra ser algo simples, não é mesmo? Só que não! Gente, fui dormir super tarde na noite anterior, e tive que madrugar, então meu cérebro não tava funcionando direito. Certo é que quando cheguei em Casa Port perguntei pro guardinha “qual é o trem pro aeroporto?”, e ele me disse o 7. Ai eu retardadamente entrei no 5! E fiquei lá de boas esperando até que ele partiu e passou o fiscal pra conferir as passagens, foi quando fiquei sabendo que o trem em que estava na verdade ia pra Rabat! Desci na primeira estação, peguei o próximo na direção contrária e consegui chegar no aeroporto à tempo.

Cheguei em torno das 10h e meu voo saía às 12h, então fui fazer o check-in. Em Casablanca eles tão mais acostumados com o passaporte brasileiro, então não me perguntaram se eu precisava de visto pra Espanha (já que meu voo fazia uma conexão em Madrid), mas o carinha sim me perguntou se eu precisava de visto pro Senegal. Eu disse que não, mas no fundo não tinha certeza, já que não entrei em contato com nenhuma representação diplomática senegalesa e tampouco achei informação consistente na internet sobre, então me deu um pouco de cagaço na hora e durante toda a viagem até carimbarem meu passaporte. Eu só pensava: na pior das hipóteses vou ser inadmitido, preso, sei lá… a outra opção seria não viajar e perder o dinheiro da passagem (ta looouco!). Por um momento me deu conta de como eu sou privilegiado de escolher a primeira opção de forma relativamente tranquila, me lembrei das histórias dos solicitantes de refugio que atendi quando trabalhei no CONARE, de pessoas cruzando fronteiras, passando por coisas horriveis. Que bom que eu consigo fazer isso sem problema nenhum. Inclusive muitos deles são senegaleses… enfim já que me foi dado esse privilégio vamos aproveitar, não é mesmo?

Chegando no aeroporto de Dakar já dá pra sentir uma atmosfera completamente diferente do Marrocos, a fila da imigração não existia (eram um amontoado de pessoas – c’est à dire: des français – se empurrando) e as esteiras eram bem confusas. Alguns (pessoas brancas que encontrei pelo Senegal, por exemplo) podem dizer: “assim é a África!”. Sei lá, não conheço a África pra saber… fato é que ninguém vai pra Paris e diz “assim é a Europa”. Passada essa etapa, passaporte carimbado e oficialmente admitido no país chega a aventura mais difícil do dia: chegar em Saint-Louis, que é a antiga capital das colônias francesas da África Ocidental. A viagem dura umas 4h de carro e eu não me informei direito sobre como me deslocar pelo país (se eu soubesse minimamente como era o Senegal teria passado a noite em Dakar). Troquei algum dinheiro e, ao sair do aeroporto, um cara me abordou oferecendo taxi privado. Disse que ia pra Saint-Louis e ele queria me cobrar 40.000 CFA (mais ou menos R$ 200) e claro que eu não ia pagar o primeiro preço que me pedem. Negociei e consegui por 25.000 CFA (ai que facada, gente!).

Fomos eu e mais 3 senegaleses, o carro fez várias paradas e cada um ficou em uma cidade diferente, eu fui o último a chegar no meu destino. Me surpreendi com a quantidade de blitz e barreiras policiais nas estradas de lá. Tinha lido vários relatos de policiais que pediam dinheiro, mas felizmente nada aconteceu. Uma coisa que eu já estranhava no Senegal era o fato de que eu imediatamente era identificado como um turista estrangeiro. Não to acostumado com isso, os últimos 700mil países que eu visitei (pra não falar todos os que eu já visitei), em algum(ns) momento(s) fui confundido com um local. Cheguei no meu hostel às 4 da manhã! E quando cheguei o motorista queria me cobrar 40.000 CFA alegando que era longe… meu amigo, eu sou generoso mas não sou idiota! Claro que eu neguei a pagar algo extra, né? Foi um dia muito cansativo, mas cá estava eu no Senegal. Apaguei e só acordei no dia seguinte depois das 11h, pra de fato ter o meu primeiro dia no país.

Bom, acho que esse post está ficando meio grande, então eu continuo o relato das minhas aventuras em um próximo post.

À toute

Fim de Semana das Neves

Já em dezembro, depois de ter decidido fazer o curso intensivo de árabe que a faculdade oferecia em janeiro, comecei a jogar um verde dentro do grupo de amigos: vamos esquiar em janeiro? Quase todos toparam e então começamos a planejar um fim de semana em Ifrane, cidade que fica nos Atlas não muito longe de Fes ou Meknés. Nos disseram que as melhores estações de esqui do Marrocos (sim, sim, dá pra esquiar no Marrocos!) ficam perto de Marrakesh. O problema é que ficava muito longe pra gente ir num fim de semana,  já que só o trem Rabat-Marrakesh leva umas 4h. Tivemos que optar por Ifrane mesmo.

Depois de algumas discussões sobre quem ia e quem não ia e, de algumas mudanças de última hora, fechamos com 7 pessoas para a viagem. Reservamos um apartamento ENORME pelo airbnb (foi muito barato, saiu o equivalente a R$ 400 por duas noites, o que dividimos em 7 pessoas) e começamos a pesquisar carros para alugar. Ifrane é uma cidade muito pequena, chamada de “a Suíça dos Atlas”, principalmente por conta da arquitetura que é bem alpina. Apesar de que a Madlaina, que é suíça, ter negado qualquer semelhança (ainda que arquitetônica). Pra chegar lá usando o transporte intermunicipal teríamos que ir de trem até Meknes e de lá pegar um grand taxi (o que dá mais ou menos 2h30min no total) ou ir direto de ônibus (que demora horrores, acho que mais de 3h). Como éramos 7 pessoas saía mais conveniente e mais barato alugar um carro, assim poderíamos ir e voltar no horário que quiséssemos, a viagem seria mais curta e ainda por cima poderíamos ir pra estação de esqui (Michliefen, que fica a 20min de Ifrane) à qualquer hora também.

Acompanhando a previsão do tempo durante toda a semana notamos que ia nevar todo dia desde quarta-feira. A previsão se concretizou e saiu em todos os noticiários daqui do Marrocos o quão coberta de neve Ifrane estava. Na sexta-feira fui pra minha aula de árabe de manhã todo agasalhado, já que levava só uma mochila pequena e as roupas de frio não cabiam nela. Como de se esperar, todos se espantaram por eu estar usando essas roupas. Não que não estivesse frio em Rabat (as temperaturas de manhã estavam em torno de 7ºC), mas eu não costumo sentir tanto frio quanto as outras pessoas, então me ver vestido assim é bem raro, e as pessoas aproveitam pra me zoar “ah, então você também sente frio!”. Gente, é claro que eu sinto frio, mas o meu frio é mais frio que o de vocês, aceitem que doi menos, tá?! Então logo me perguntaram: “o que esta acontecendo???”, de uma maneira a me zoar, sabe? Ai disse que ia pra Ifrane depois do almoço e tal. Foi quando a professora me perguntou: “mas você checou se a estrada ta aberta? Porque tem nevado bastante e normalmente quando isso acontece eles fecham a estrada por motivos de segurança e você não tem como saber até chegar lá.”. Se “eu não tenho como saber até chegar lá” então não tem outra opção a não ser arriscar, não é mesmo?

Quase todos que foram na viagem também tinham aula de árabe até as 13h. Acabada a aula, algumas pessoas foram resolver burocracias rápidas (no meu caso fui ao Instituto Francês, o que inclusive rende assunto para um outro post, rs) e combinamos de nos encontrar na loja onde alugaríamos o carro. Depois de um pequeno atraso, conseguimos sair com o carro as 15:30. Pegamos a estrada no sentido Meknes/Fes e o dia estava lindo. As paisagens são de tirar o fôlego e o entardecer estava realmente muito bonito. As meninas que dirigiam só estavam um pouco receosas e torcendo pra não ter nada na estrada, já que ninguém queria dirigir de noite na neve e ainda tinha um plus: não tínhamos correntes nos pneus, já que na locadora não havia essa possibilidade. A maioria esmagadora das pessoas que alugam carros, pra andar por essa região nessa época do ano, o fazem em Fes ou Meknes, onde é possível conseguir as correntes.

Enfim, passamos Meknes e, depois de mais ou menos uma hora e meia de estrada encontramos uma barreira. A neve já começava a aparecer e a polícia fechou a estrada. Esperamos, esperamos, esperamos… acho que passou mais de 30min e resolvemos ir checar o que de fato estava acontecendo. Andamos um pouco e perguntamos pro policial quando poderíamos passar ou se poderíamos passar. Ele disse: em 15 minutos. Só que são 15 minutos marroquinos, né? hahahahahahah. Certo é que esperamos 1 hora e meia! Até ligamos pro proprietário do apartamento pra avisar que talvez não chegaríamos hoje, pensamos em voltar e procurar um hotel na cidade próxima. Já estávamos todos do lado de fora do carro brincando na neve, quando… liberaram a estrada!

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Ifrane coberta de névoa

Corremos de volta pra dentro do carro e partimos. Bom, ai começou a verdadeira aventura… tinham muitos, muitos, muitos, muitos carros na estrada, então a velocidade estava bem baixa. Depois de uns 10min percebemos o porquê da estrada estar fechada. Gente, vocês não tem noção, era um fog que você mal conseguia ver o carro da frente, neve, neve, neve, pra todo lado, muito vento, gelo no asfalto e ainda por cima na SUBIDA. Nos cagamos todos até chegar em Ifrane, principalmente porque não tinhamos corrente nos pneus, o que é muito, muito perigoso, já que o risco de derrapar e causar um acidade é real. O que mais me impressionou foi o fato dos marroquinos também dirigirem sem correntes e muitas vezes com carros velhos que claramente subiam a serra com muita dificuldade. Tipo, nós somos um bando de jovens turistas retardados tentando ter um fim de semana com muita neve, mas ele MORAM aqui, sabe? Isso é o que eu chamo de viver perigosamente. Enfim, mais uma das coisas que pra mim não fazem sentido, mas como eu sempre digo: “they don’t mind dying” (eles não se importam em morrer).

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Estrada depois da barreira

Enfim, depois de muito estresse e foco conseguimos chegar em Ifrane e no apartamento com vida. Tava um frio, acho que uns -8/-10 e o aquecimento da casa não funcionava direito. Na verdade podemos considerar que não tinha, porque na prática não tinha, né? Achamos que pelo menos em Ifrane (nas casas e na cidade como um todo) ia ter aquecimento, já que né… lá é frio, bem frio, quase o ano todo. Enfim, melhor aceitar que no inverno marroquino a gente tem que se aquecer de outras maneiras. Saímos rapidinho só pra comprar algumas coisas pra cozinhar e fomos dormir cedo, já que a nossa intenção era ir pra estação de esqui no dia seguinte de manhã.

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Praça em Ifrane

No dia seguinte o proprietário do apartamento onde estávamos (que literalmente morava no andar de cima) nos disse que – por conta da nevasca – não ia ter ônibus pra Michliefen. Ninguém quis se arriscar a dirigir nessas condições, então desistimos de esquiar e resolvemos ficar em Ifrane e aproveitar a neve, já que estava na altura dos joelhos em todas as ruas. Comprei umas luvas impermeáveis de segunda mão por 30 DH (menos de R$ 10) – claro que depois de gastar muita saliva, já que o cara queria me cobrar 60 DH – só pra poder tocar a neve, já que sem as luvas não ia estar rolââândo.

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Passamos o dia andando pra lá e pra cá, brincando na neve, tomando chocolate quente, comendo e comendo e comendo e procurando algum lugar pra tomar vinho (mas sem muito sucesso, rs). Uma situação bem engraçada aconteceu enquanto almoçávamos. Um cara com uma câmera enorme começou a nos filmar compulsivamente, o que nos incomodou, claro. Então ele se apresentou como sendo repórter de um canal de TV e perguntou quem falava francês. A Sarah (que é francesa) se entregou e ele mirou na cara dela e pediu pra ela dizer o nome, nacionalidade, se era a primeira vez na cidade, que estava amando e que Ifrane estava coberta de neve! Ele disse que era pra atrair mais turistas. O fato é que a gente já tava quase gritando pra ele nos deixar comer em paz, mas enfim ele saiu voluntariamente.

Até que… na praça principal da cidade encontramos um cara que alugava trenós! Alugamos dois (por menos de R$ 6 cada um e pelo dia todo!) e fomos brincar descendo uma mini ladeirinha. Gente, mas como foi divertidooo!!! Subimos e descemos, subimos e descemos, subimos e descemos milhões de vezes. No final já tinha entrado tanta neve na minha bota, a neve tinha derretido e eu já não sentia mais os meus pés! Gente, sério, achei que ia ter que amputa-los, rs, a situação tava realmente tensa. Voltamos pro apartamento no final da tarde e ficamos tomando chá, chocolate quente, comendo, comendo, comendo até dormir. As meninas estavam o tempo todo preocupadas com a estrada, se teria muita neve , se estaria aberta, se ia nevar durante a viagem. Enfim, foi o trauma da ida, né? Ninguém estava muito disposto a arriscar a própria vida, mas fato é que não tínhamos outra opção.

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Descendo a ladeira de trenó! 😀

No dia seguinte acordamos cedo e fomos arrumar tudo, limpar o apartamento, tentar limpar a rua e tirar um pouco da neve pra conseguir sair com o carro. Não parou de nevar durante o fim de semana inteirinho, então os nossos carros ficaram todos cobertos de neve e a rua também, tivemos que usar uma pá pra quebrar e tirar o gelo que tava no chão. Enfim, conseguimos limpar e arrumar tudo e pegamos a estrada com um cagaço também, já que o trauma da ida ainda estava em nossas memórias. Felizmente já estava tudo bem, não nevava e em 15min percorremos o mesmo trajeto que na sexta levamos mais de uma hora! Incrível, rs! Chegamos em Rabat sãos e salvos no final da tarde. Foi um fim de semana muito divertido e o último de algumas pessoas, que na semana seguinte já voltaram pros seus países. 

Já estou com 70mil coisas pra fazer nesses dias (aqui no Marrocos não é feriado, não tem carnaval),mas prometo tentar atualizar o blog com situações do Marrocos e a viagem ao Senegal e Gâmbia o mais rápido possível!

À toute

Um Réveillon Diferente

Nesse réveillon minha irmã veio me visitar no Marrocos, então pensamos em passar no deserto. Pegamos o trem pra Marrakesh no dia 27/12 e fomos pro nosso hotel (que reservamos de última hora e só conseguimos uma noite). Chegando lá pegamos informações sobre o passeio no deserto, que custa 800 DH (cerca de R$ 250) pra 3 dias e 2 noites, incluindo o transporte, acomodação café da manhã e jantar em todos os dias.

Achamos ótimo, só que quando chegamos em Marrakesh deu vontade de fazer esse passeio saindo no dia 30, ai passaríamos a virada no deserto. Bom, o problema é que só tínhamos uma noite reservada em Marrakesh e sabe como é, né? Final de ano é sempre uma loucura pra achar hotel seja lá onde for. Enfim, problema resolvido, reservamos o passeio e mudamos de hotel. Aproveitamos esses dois dias em Marrakesh andando bastante pelo souk, fomos na Madrassa Ben Youssef, no Jardim Majorelle, no palácio Bahia, nos jardins, enfim. Quase todos os lugares que descrevi no meu outro posto sobre Marrakesh.

No dia 30/12 de manhã vierem nos buscar no nosso hotel pontualmente às 7h. Olha, me impressionei nem parecia que estávamos no Marrocos. Claro que tinha que ter alguma coisa, não é mesmo? A van passou em outros hoteis pegando outros turistas e em seguida fomos para uma praça onde não parava de chegar vans e mais vans. Eles mandaram todo mundo descer e depois de séculos iam chamando as pessoas. O que aconteceu é q eles oferecem passeios de 1, 2 3 dias, então meio que buscaram as pessoas aleatoriamente nos hoteis, juntaram na praça e depois dividiram. Tinham umas pessoas reclamando “mas isso não faz sentido!”, “como assim?!”. Porque realmente esperamos bastante tempo, mas depois de 5 meses no Marrocos eu já nem exijo que as coisas façam sentido, é perda de tempo. O negoço é relaxar e aproveitar o que puder, não é mesmo?

Na nossa van tinham 13 pessoas, nós 2 e mais 3 brasileiros e um português (que estavam juntos, porque são família), 3 argentinos, um equatoriano, uma marroquina e mais uma família de suíços. Esses suíços são um capítulo à parte, fediam que vocês não imaginam… parecia que estavam sem tomar banhos faz meses!

O passeio começa descendo os atlas, visitando vilarejos e colinas lindíssimas. Ao redor de 13/14h estávamos em Ouarzazate, onde se concentra a industria cinematográfica marroquina e onde foram gravados alguns filmes e séries. Achei que iríamos dormir em Ouarzazate, mas na realidade pegamos a estrada e depois de algumas horas paramos em um hotel para passar a noite. Durante o dia as temperaturas estavam de boas, ao redor de 20ºC, até tiramos os casacos, rs. O problema é que durante à noite a temperatura cai pra abaixo de 0ºC e – como em todos os lugares do Marrocos – o nosso hotel não tinha aquecimento. Foi uma noite bem fria, mas nada que alguns cobertores não resolvessem. Já foi um teste pro que estava por vir na noite da virada, rs.

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Paisagem na cordilheira dos Atlas
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Kasbah de um vilarejo 

No dia seguinte visitamos mais vilarejos e vales lindíssimos. Fomos à uma vila berberes onde se produzem tapetes e tinham muitas e muitas crianças fazendo origâmis com capim e outras folhas e dando pra gente. Coitados, eles queriam alguns trocados, mas quando recusávamos eles faziam umas caras de tristes. Depois de um tempo eles passaram a nos dar “de graça”, mas se recusássemos eles colocavam na nossa mão/bolsa/sacola mesmo assim, rs! Enfim, chegamos no hotel que fica em Merzouga, de onde pegaríamos os camelos para ir para as tendas no deserto.

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Cânion no sul dos Atlas

Tivemos que esperar um pouco, já que eram poucos camelos para muitos turistas. Então começamos a andar na dunas, até que os camelos chegaram e nós pudemos ir em direção às tendas. O sol já estava se pondo e, quando chegamos, já estava completamente escuro. O fato é que chegamos e estava um pouco frio, mas não tanto. Só que rapidamente a temperatura vai caindo e tudo vai congelando, chegando à um pico de -2ºC nessa noite. Tivemos que esperar o jantar, então decidimos (quase todo mundo do grupo) subir uma duna que ficava ali do lado. Eu já não dei conta, comecei a respirar pela boca e o ar gelado fez minha garganta pedir arrego. Sentei ali na metade e fiquei olhando as estrelas, que são incríveis. Os argentinos também pararam na mesma altura que eu, então ficamos conversando um pouco. Eu não fiz questão de subir porque já fiz isso da outra vez e nem tinha nascer do sol ou nada de muito especial que me fizesse querer, rs.

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Pôr do sol no deserto

Depois de descer esperamos mais um pouco para jantar e, depois de comer, nos sentamos ao redor de uma fogueira e os guias marroquinos começaram a tocar uma músicas. Foi bem legal e à essa altura já estava congelante, mas a fogueira ajudava a diminuir isso. Ficamos lá conversando, cantando até depois de meia noite, congelando e admirando as estrelas. Fui para a tenda ao redor de 2h, mas estava tão frio que não consegui dormir direito. Tínhamos só uma coberta e nossa tenda tava furada, então vocês nem imaginam o quão horrível e congelante foi.

No dia seguinte deveríamos acordar as 5h pra assistir ao por do sol e voltar. Claro que todo mundo acordou só depois das 7h, mas ainda assim conseguimos admirar o sol nascer nas proximidades do nosso acampamento. Depois pegamos os camelos, voltamos pro hotel, tomamos café da manhã e partimos de volta à Marrakesh. De Merzouga são mais umas 8h de estrada e tinhamos a ideia de pegar o trem pra Rabat ainda no mesmo dia. Por pouco perdemos o último trem, que saía às 21h. Acabamos dormindo no Ibis do lado da estação de trem e no dia seguinte de manhã voltamos pra Rabat.

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O amanhecer

Foi perrengue, congelante, sem espumante, sem comilança, mas faria tudo de novo!!! Realmente é um passeio incrível e o réveillon forrado de estrelas é único!

À toute

Pagando uma conta de luz no Marrocos

Tudo começou no final de setembro, quando lembramos que deveríamos pagar contas (como o wi-fi, água e eletricidade). Precisaríamos pegar os boletos dentro do escaninho do correio, não é mesmo? O problema é que lembramos que o proprietário se esqueceu de nos entregar quando acertamos tudo. Sem problemas, é só pedir pro Moustafah, o nosso concierge (aqui no Marrocos as coisas funcionam num esquema bem diferente do Brasil, rende um outro post).

A primeira barreira começa ai, já que Moustafah fala apenas darija, o dialeto árabe-marroquino. Pra nossa sorte ele entende o francês (apesar de não falar), mas a língua internacional da mímica sempre quebra o galho, não é mesmo? Eis que na correria do dia-a-dia sempre nos esquecíamos de falar com ele e o tempo foi passando, passando. Até que em meados de outubro Giacomo – meu flatmate italiano – falou com ele e, sem a chave, conseguiram pegar algumas correspondências que estavam lá dentro. Dentre elas estava a fatura de água e eletricidade (que aqui no Marrocos vem no mesmo boleto), para ser paga a tipo umas duas semanas. Conferimos o período do consumo e na verdade se referia a alguns meses antes mesmo de chegarmos ao Marrocos. Pois bem, mandei mensagem pro Miloud – o proprietário do apartamento – e ele pagou a conta sem problema nenhum.

O tempo foi passando, passando um mês depois lembramos que tinhamos que pegar novamente as correspondências. A mesma coisa de sempre: nos esquecíamos de falar com Moustafah e/ou quando batiamos na porta dele (que mora no primeiro andar do predio) ele não estava. Os dias foram se passando e a energia e o wi-fi não foram cortados, então pensamos: “o Miloud deve ta pagando tudo, não é mesmo?”. Afinal de contas, as últimas faturas ele pagou. Se as empresas não cortaram os serviços é porque não estamos inadimplentes”. Um belo dia conseguimos pegar as correspondências e, além da conta de luz tinha uma cobrança dizendo: “prazo final para o pagamento da fatura de água e eletricidade, após o prazo (que originalmente era 31/10): 16/11”. O problema é que já era dia 20/11 e todos os serviços estavam funcionando normalmente.

No dia seguinte (segunda-feira), os meninos foram pra faculdade de manhã e, como não tinha aula, fiquei em casa estudando. Ao redor de 11h alguém bate na porta, quando atendo é um funcionário da empresa municipal de eletricidade mexendo na fiação do lado de fora e me perguntou: “qual fio aqui é o do seu apartamento? Vou cortar, já que você não pagou a fatura!”. Então eu disse: “nããão!!! Nós somos estrangeiros e não tinhamos recebido o boleto, mas recebemos ontem e vamos pagar hoje mesmo!”. Ai ele disse: “ah, então ta bom, se vocês vão pagar hoje então eu não corto”.

Chovia bastante em Rabat (gente, nunca chove nessa cidade! D:) e eu sai pra ir no banco pagar o boleto. Ao chegar no banco, fiz o mesmo que faria no Brasil: entrei na fila do caixa e esperei a minha vez. Achei super estranho, porque nesse banco (Crédit Agricole Maroc) – que é o mais perto de casa – as pessoas faziam e respeitavam a fila! Enfim, quando chegou a minha vez o caixa me disse: “não é aqui que paga isso, vc tem que ir em #$%ˆ@#$%ˆ&*”. Saí de lá todo confuso, onde eu pago um boleto se não em um banco?! O cara me disse onde tinha q ir, mas eu me perdi no meio de tanta informação e estava chovendo muito então resolvi voltar pra casa e tentar procurar o lugar no dia seguinte.

No dia seguinte eu e Rane (meu flatmate dinamarquês) fomos na rua pagar os boletos. O wi-fi era na loja da Maroc Telecom, que sabiamos onde era, mas a fatura de água e eletricidade continuava uma incógnita. Perguntei na loja da Maroc Telecom mas ninguém sabia… me desesperei, ainda mais porque também chovia bastante! Saí literalmente entrando de loja em loja e de banco em banco perguntando onde eu deveria pagar, até que um segurança de um banco me disse que deveria ir para o escritório da própria empresa. Depois de andar um pouco mais vimos uma placa indicando onde ficava o escritório do nosso bairro. Seguimos ela e… andamos, andamos, andamos, entramos num lugar no meio do lada onde não havia absolutamente nada! E… voilà, achamos o bendito escritório e pagamos.

No dia seguinte tinhamos aula de darija. Começamos a aprender a conjugar os verbos no passado, então a professora nos pediu para fazer frases. O Rane falou: “ontem eu fui pagar a conta de luz, depois de baterem na nossa porte ameaçando cortarem o serviço”. Ai começou o papo e a professora acabou nos dizendo que dá pra pagar em pequenas lojas ou bancas de jornal com um símbolo amarelo de um sistema que recebe. Enfim, nos bancos não pode pagar mas na mercearia da esquina pode. Sem problemas, agora já aprendi e pelo menos não preciso ir para o meio do nada pra pagar a conta, rs. O mais engraçado é que, mesmo pagando com quase um mês de atraso não tinha nenhum centavo de multa ou juros. Se fosse no Brasil ia ter q vender um rim pra pagar!

Enfim, foi isso

À toute

Marrakesh Parte 2

Domingo de manhã tivemos que fazer o check out no nosso hostel, já que não tinham mais lugares disponíveis para as duas noites que ainda estaríamos em Marrakech. A Laura, dormiu no apt que uns amigos alugaram e o Abdoullah no sofá da recepção mesmo. No dia anterior tentamos reservar alguma coisa pela internet, mas o meu aplicativo do hostel world não estava querendo funcionar de jeito nenhum, então o jeito foi ir pessoalmente ao outro hostel e torcer pra ainda terem camas disponíveis. Chegamos lá (que era só atravessar a Jma El-Fnaa, super pertinho) e perguntamos sobre a disponibilidade. Eis que eles tinham camas livres pro período, mas o preço que nos cobraram era bem acima do que estava no site. Após uma negociação básica conseguimos pagar a mesma coisa.

De noite, ao voltarmos do COY12, fomos pro terraço e ficamos lá conversando. Até o ponto em que o dono do hostel veio reclamando que estávamos fazendo muito barulho e que crianças tentavam dormir nas casas vizinhas – que eram literalmente coladas – e, portanto, ele ia fechar o terraço.

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Maison de la Photographie

No dia seguinte de manhã fomos à Casa da Fotografia de Marrakesh. Esta tendo uma exposição de sobre o Marrocos do início do século XX. Foi engraçado ver fotos de Rabat e de outras regiões do país 100 anos atrás e ver como mudou! Judeus e franceses foram embora, as tradições se tornaram menos presentes no dia-a-dia da população, as cidades cresceram. Foi realmente bem interessante. De tarde, fomos ao Jardin Majorelle, que é uma propriedade onde viveu pertenceu ao Yves Saint Laurent, e hoje tem um jardim encantador aberto ao público. Eles cobram entrada, que custa 70 DH (pouco mais de R$ 20, o que é uma fortuna nesse país), mas se tivéssemos nossa carteirinha de estudantes teríamos pago 30DH. Tentamos negociar (afinal, estamos no Marrocos, não é mesmo?)  e gastamos nosso darija: “Ana talib fi l’Rabat!!!“.

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Jardin Majorelle

Não funcionou e tivemos que pagar o valor inteiro mesmo… O jardim em si é bem bonito e o dia estava lindo e ensolarado (mas um pouco friozinho, então tava perfeito pra mim!). O Abdoullah teve que ir embora mais cedo, pois o ônibus dele de volta pra Agadir já ia sair, então nos despedimos e continuamos mais um pouco no jardim. Depois de caminhar bastante, fomos andar na rua em busca de um salon de thé. Sentamos pra tomar um chá após andar algumas quadras.

Resolvemos então ir no cinema e ficamos horas procurando onde e o que assistir, até que achamos na internet um lugar não muito longe. Ao chegarmos lá, os filmes não estavam muito atrativos, então nem quisemos assistir nada. O legal foi que no meio do caminho achamos uma loja da swatch e eu consegui concertar a pulseira do meu relógio sem pagar NADA (!!!!). À essas alturas já estava escurecendo, então voltamos pra Jmaa El-Fnaa e ficamos dando umas voltar por lá, comemos e voltamos pro hostel.

Fomos pro terraço e ficamos conversando por algumas horas, inclusive com o dono do hostel. Estávamos eu, as meninas, uma chinesa e um senhor de Taiwan. Papo vai, papo vem, a chinesa começou a perguntar sobre relacionamentos entre jovens marroquinos e marroquinas, se eles namoram e tal. Bom, eu respondi que não saio perguntando pras pessoas se elas tem namorado/a, já que não tenho nada a ver com a vida deles e também ninguém é obrigado a namorar, não é mesmo? Certo é que o dono do hostel ouviu e ficou super puto, até que um tempo depois chegou pra chinesa e perguntou: “eu queria que você falasse um pouco sobre casamento na China”. Ai ela: “você quer casar com uma chinesa???”. E ele disse: “não, mas queria que você me falasse, porque aqui no Marrocos não temos relacionamento antes do casamento! E os casamentos são arranjados, você aceita a esposa ou marido que a sua família escolhe e respeita ele ou ela”. O negoço começou a esquentar e começamos a mudar de assunto, mas o senhor de Taiwan não ajudava, começou a dizer que os marroquinos são super opressores com as mulheres e bla bla bla. Assim, não que não sejam, mas ele veio com aquele tom de ~missão civilizatória~, sabe? O mais impressionante foi o dono do hostel falar: “sim, temos desigualdade de gênero! As mulheres exigem que os maridos parem de fumar, isso é muito opressor!”. Nós ficamos chocados, quase disse pra ele: “aham senta lá Claudia!”. Tipo, não me sinto à vontade pra descrever detalhadamente como a opressão de gênero funciona aqui no Marrocos, até porque varia de região pra região. Uma coisa é fato: existe e qualquer um com um mínimo de se mancol consegue ver isso. A coisa piorou ainda mais quando o senhor de Taiwan resolveu falar que lá eles tão discutindo a legalização do casamento homoafetivo. Nossa, o dono o hostel começou: “Isso é nojentooo!!! E não estou falando de religião!!!”. Depois dessa, só me restou ir embora, porque não sou obrigado não é mesmo?

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Corredor no Bahia Palace

No dia seguinte queriamos visitar dois lugares: o Bahia Palace e o Jardins Ménara. Não sabíamos se teríamos tempo, já que nosso trem sairia 16:45. Fomos pro Bahia Palace, visitamos tudinho com calma, já que também não queríamos ficar correndo pra encaixar as coisas. O palácio é lindo, naquele estilo Marroquimo/Al-Andalus, com hammans, jardins e etc. Depois de visitar o palácio, fomos procurar um lugar para comer, estávamos famintos (risos)! Logo em seguida pegamos um táxi pros jardins Ménara. Não era o que esperávamos, as fotos que vimos pareciam muito mais bonitas, mas ainda assim valeu à pena. O jardim é 95% oliveiras e tem um palácio no centro, com um lago em frente. E no fundo dá pra ver a cordilheira dos Atlas, com seus picos nevados. Tinham algumas nuvens na frente tapando a vista das montanhas, mas ainda assim eram lindíssimas.

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Voltamos pro hostel para pegar nossas coisas e fomos caçar um taxi pra ir pra estação de trem, já que tínhamos mais ou menos uma hora. Um trajeto normal demoraria 15min e é super fácil conseguir táxi em Marrakech, nada poderia dar errado, não é mesmo? Eeee-rradooo! Paramos 700 taxis e todos queriam nos cobrar preço fixo. O problema é não somos turistas retardados e sabemos que a lei obriga os petit taxis a usarem o taximetro e somente os grands taxis têm preço tabelado. E como eles cobravam caro, viu? Tavam querendo 50 por uma corrida que custa no máximo 10!!! Recusávamos, claro, mas o tempo começou a ficar apertado e resolvemos negociar com um taxista, que nos fez por 30 DH. Chegamos na estação de trem e só deu tempo de comprar a passagem e embarcar, o trem saiu logo em seguida, foi por pouco, rs.

Na viagem de volta deu tudo certo, tirando o fato de que o trem atrasou 1,5h… mas também é pra aprender a ter cabeça fria que estamos no Marrocos, não é mesmo? É uma questão de sobrevivência, temos que nos adaptar à esse tipo de coisa.

À toute