Pagando uma conta de luz no Marrocos

Tudo começou no final de setembro, quando lembramos que deveríamos pagar contas (como o wi-fi, água e eletricidade). Precisaríamos pegar os boletos dentro do escaninho do correio, não é mesmo? O problema é que lembramos que o proprietário se esqueceu de nos entregar quando acertamos tudo. Sem problemas, é só pedir pro Moustafah, o nosso concierge (aqui no Marrocos as coisas funcionam num esquema bem diferente do Brasil, rende um outro post).

A primeira barreira começa ai, já que Moustafah fala apenas darija, o dialeto árabe-marroquino. Pra nossa sorte ele entende o francês (apesar de não falar), mas a língua internacional da mímica sempre quebra o galho, não é mesmo? Eis que na correria do dia-a-dia sempre nos esquecíamos de falar com ele e o tempo foi passando, passando. Até que em meados de outubro Giacomo – meu flatmate italiano – falou com ele e, sem a chave, conseguiram pegar algumas correspondências que estavam lá dentro. Dentre elas estava a fatura de água e eletricidade (que aqui no Marrocos vem no mesmo boleto), para ser paga a tipo umas duas semanas. Conferimos o período do consumo e na verdade se referia a alguns meses antes mesmo de chegarmos ao Marrocos. Pois bem, mandei mensagem pro Miloud – o proprietário do apartamento – e ele pagou a conta sem problema nenhum.

O tempo foi passando, passando um mês depois lembramos que tinhamos que pegar novamente as correspondências. A mesma coisa de sempre: nos esquecíamos de falar com Moustafah e/ou quando batiamos na porta dele (que mora no primeiro andar do predio) ele não estava. Os dias foram se passando e a energia e o wi-fi não foram cortados, então pensamos: “o Miloud deve ta pagando tudo, não é mesmo?”. Afinal de contas, as últimas faturas ele pagou. Se as empresas não cortaram os serviços é porque não estamos inadimplentes”. Um belo dia conseguimos pegar as correspondências e, além da conta de luz tinha uma cobrança dizendo: “prazo final para o pagamento da fatura de água e eletricidade, após o prazo (que originalmente era 31/10): 16/11”. O problema é que já era dia 20/11 e todos os serviços estavam funcionando normalmente.

No dia seguinte (segunda-feira), os meninos foram pra faculdade de manhã e, como não tinha aula, fiquei em casa estudando. Ao redor de 11h alguém bate na porta, quando atendo é um funcionário da empresa municipal de eletricidade mexendo na fiação do lado de fora e me perguntou: “qual fio aqui é o do seu apartamento? Vou cortar, já que você não pagou a fatura!”. Então eu disse: “nããão!!! Nós somos estrangeiros e não tinhamos recebido o boleto, mas recebemos ontem e vamos pagar hoje mesmo!”. Ai ele disse: “ah, então ta bom, se vocês vão pagar hoje então eu não corto”.

Chovia bastante em Rabat (gente, nunca chove nessa cidade! D:) e eu sai pra ir no banco pagar o boleto. Ao chegar no banco, fiz o mesmo que faria no Brasil: entrei na fila do caixa e esperei a minha vez. Achei super estranho, porque nesse banco (Crédit Agricole Maroc) – que é o mais perto de casa – as pessoas faziam e respeitavam a fila! Enfim, quando chegou a minha vez o caixa me disse: “não é aqui que paga isso, vc tem que ir em #$%ˆ@#$%ˆ&*”. Saí de lá todo confuso, onde eu pago um boleto se não em um banco?! O cara me disse onde tinha q ir, mas eu me perdi no meio de tanta informação e estava chovendo muito então resolvi voltar pra casa e tentar procurar o lugar no dia seguinte.

No dia seguinte eu e Rane (meu flatmate dinamarquês) fomos na rua pagar os boletos. O wi-fi era na loja da Maroc Telecom, que sabiamos onde era, mas a fatura de água e eletricidade continuava uma incógnita. Perguntei na loja da Maroc Telecom mas ninguém sabia… me desesperei, ainda mais porque também chovia bastante! Saí literalmente entrando de loja em loja e de banco em banco perguntando onde eu deveria pagar, até que um segurança de um banco me disse que deveria ir para o escritório da própria empresa. Depois de andar um pouco mais vimos uma placa indicando onde ficava o escritório do nosso bairro. Seguimos ela e… andamos, andamos, andamos, entramos num lugar no meio do lada onde não havia absolutamente nada! E… voilà, achamos o bendito escritório e pagamos.

No dia seguinte tinhamos aula de darija. Começamos a aprender a conjugar os verbos no passado, então a professora nos pediu para fazer frases. O Rane falou: “ontem eu fui pagar a conta de luz, depois de baterem na nossa porte ameaçando cortarem o serviço”. Ai começou o papo e a professora acabou nos dizendo que dá pra pagar em pequenas lojas ou bancas de jornal com um símbolo amarelo de um sistema que recebe. Enfim, nos bancos não pode pagar mas na mercearia da esquina pode. Sem problemas, agora já aprendi e pelo menos não preciso ir para o meio do nada pra pagar a conta, rs. O mais engraçado é que, mesmo pagando com quase um mês de atraso não tinha nenhum centavo de multa ou juros. Se fosse no Brasil ia ter q vender um rim pra pagar!

Enfim, foi isso

À toute

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Marrakesh Parte 2

Domingo de manhã tivemos que fazer o check out no nosso hostel, já que não tinham mais lugares disponíveis para as duas noites que ainda estaríamos em Marrakech. A Laura, dormiu no apt que uns amigos alugaram e o Abdoullah no sofá da recepção mesmo. No dia anterior tentamos reservar alguma coisa pela internet, mas o meu aplicativo do hostel world não estava querendo funcionar de jeito nenhum, então o jeito foi ir pessoalmente ao outro hostel e torcer pra ainda terem camas disponíveis. Chegamos lá (que era só atravessar a Jma El-Fnaa, super pertinho) e perguntamos sobre a disponibilidade. Eis que eles tinham camas livres pro período, mas o preço que nos cobraram era bem acima do que estava no site. Após uma negociação básica conseguimos pagar a mesma coisa.

De noite, ao voltarmos do COY12, fomos pro terraço e ficamos lá conversando. Até o ponto em que o dono do hostel veio reclamando que estávamos fazendo muito barulho e que crianças tentavam dormir nas casas vizinhas – que eram literalmente coladas – e, portanto, ele ia fechar o terraço.

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Maison de la Photographie

No dia seguinte de manhã fomos à Casa da Fotografia de Marrakesh. Esta tendo uma exposição de sobre o Marrocos do início do século XX. Foi engraçado ver fotos de Rabat e de outras regiões do país 100 anos atrás e ver como mudou! Judeus e franceses foram embora, as tradições se tornaram menos presentes no dia-a-dia da população, as cidades cresceram. Foi realmente bem interessante. De tarde, fomos ao Jardin Majorelle, que é uma propriedade onde viveu pertenceu ao Yves Saint Laurent, e hoje tem um jardim encantador aberto ao público. Eles cobram entrada, que custa 70 DH (pouco mais de R$ 20, o que é uma fortuna nesse país), mas se tivéssemos nossa carteirinha de estudantes teríamos pago 30DH. Tentamos negociar (afinal, estamos no Marrocos, não é mesmo?)  e gastamos nosso darija: “Ana talib fi l’Rabat!!!“.

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Jardin Majorelle

Não funcionou e tivemos que pagar o valor inteiro mesmo… O jardim em si é bem bonito e o dia estava lindo e ensolarado (mas um pouco friozinho, então tava perfeito pra mim!). O Abdoullah teve que ir embora mais cedo, pois o ônibus dele de volta pra Agadir já ia sair, então nos despedimos e continuamos mais um pouco no jardim. Depois de caminhar bastante, fomos andar na rua em busca de um salon de thé. Sentamos pra tomar um chá após andar algumas quadras.

Resolvemos então ir no cinema e ficamos horas procurando onde e o que assistir, até que achamos na internet um lugar não muito longe. Ao chegarmos lá, os filmes não estavam muito atrativos, então nem quisemos assistir nada. O legal foi que no meio do caminho achamos uma loja da swatch e eu consegui concertar a pulseira do meu relógio sem pagar NADA (!!!!). À essas alturas já estava escurecendo, então voltamos pra Jmaa El-Fnaa e ficamos dando umas voltar por lá, comemos e voltamos pro hostel.

Fomos pro terraço e ficamos conversando por algumas horas, inclusive com o dono do hostel. Estávamos eu, as meninas, uma chinesa e um senhor de Taiwan. Papo vai, papo vem, a chinesa começou a perguntar sobre relacionamentos entre jovens marroquinos e marroquinas, se eles namoram e tal. Bom, eu respondi que não saio perguntando pras pessoas se elas tem namorado/a, já que não tenho nada a ver com a vida deles e também ninguém é obrigado a namorar, não é mesmo? Certo é que o dono do hostel ouviu e ficou super puto, até que um tempo depois chegou pra chinesa e perguntou: “eu queria que você falasse um pouco sobre casamento na China”. Ai ela: “você quer casar com uma chinesa???”. E ele disse: “não, mas queria que você me falasse, porque aqui no Marrocos não temos relacionamento antes do casamento! E os casamentos são arranjados, você aceita a esposa ou marido que a sua família escolhe e respeita ele ou ela”. O negoço começou a esquentar e começamos a mudar de assunto, mas o senhor de Taiwan não ajudava, começou a dizer que os marroquinos são super opressores com as mulheres e bla bla bla. Assim, não que não sejam, mas ele veio com aquele tom de ~missão civilizatória~, sabe? O mais impressionante foi o dono do hostel falar: “sim, temos desigualdade de gênero! As mulheres exigem que os maridos parem de fumar, isso é muito opressor!”. Nós ficamos chocados, quase disse pra ele: “aham senta lá Claudia!”. Tipo, não me sinto à vontade pra descrever detalhadamente como a opressão de gênero funciona aqui no Marrocos, até porque varia de região pra região. Uma coisa é fato: existe e qualquer um com um mínimo de se mancol consegue ver isso. A coisa piorou ainda mais quando o senhor de Taiwan resolveu falar que lá eles tão discutindo a legalização do casamento homoafetivo. Nossa, o dono o hostel começou: “Isso é nojentooo!!! E não estou falando de religião!!!”. Depois dessa, só me restou ir embora, porque não sou obrigado não é mesmo?

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Corredor no Bahia Palace

No dia seguinte queriamos visitar dois lugares: o Bahia Palace e o Jardins Ménara. Não sabíamos se teríamos tempo, já que nosso trem sairia 16:45. Fomos pro Bahia Palace, visitamos tudinho com calma, já que também não queríamos ficar correndo pra encaixar as coisas. O palácio é lindo, naquele estilo Marroquimo/Al-Andalus, com hammans, jardins e etc. Depois de visitar o palácio, fomos procurar um lugar para comer, estávamos famintos (risos)! Logo em seguida pegamos um táxi pros jardins Ménara. Não era o que esperávamos, as fotos que vimos pareciam muito mais bonitas, mas ainda assim valeu à pena. O jardim é 95% oliveiras e tem um palácio no centro, com um lago em frente. E no fundo dá pra ver a cordilheira dos Atlas, com seus picos nevados. Tinham algumas nuvens na frente tapando a vista das montanhas, mas ainda assim eram lindíssimas.

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Voltamos pro hostel para pegar nossas coisas e fomos caçar um taxi pra ir pra estação de trem, já que tínhamos mais ou menos uma hora. Um trajeto normal demoraria 15min e é super fácil conseguir táxi em Marrakech, nada poderia dar errado, não é mesmo? Eeee-rradooo! Paramos 700 taxis e todos queriam nos cobrar preço fixo. O problema é não somos turistas retardados e sabemos que a lei obriga os petit taxis a usarem o taximetro e somente os grands taxis têm preço tabelado. E como eles cobravam caro, viu? Tavam querendo 50 por uma corrida que custa no máximo 10!!! Recusávamos, claro, mas o tempo começou a ficar apertado e resolvemos negociar com um taxista, que nos fez por 30 DH. Chegamos na estação de trem e só deu tempo de comprar a passagem e embarcar, o trem saiu logo em seguida, foi por pouco, rs.

Na viagem de volta deu tudo certo, tirando o fato de que o trem atrasou 1,5h… mas também é pra aprender a ter cabeça fria que estamos no Marrocos, não é mesmo? É uma questão de sobrevivência, temos que nos adaptar à esse tipo de coisa.

À toute