Fomos à Espanha: cruzando a fronteira Marrocos/Ceuta

Quem me conhece sabe que eu sou da pá virada e gosto de visitar lugares que, muitas vezes, as pessoas não entendem. No mês de março, minha amiga Hannah – uma pessoa, digamos, também não muito convencional, rs – veio me visitar no Marrocos e, planejando nossa viagem, decidimos ir pra onde? Pro deserto, Agadir, pras montanhas? Não, primeiramente: Ceuta! Pra quem não sabe, junto com Melilla, elas são duas cidades de soberania espanhola localizadas na costa mediterrânea do Marrocos. O que mais nos motivava a ir pra lá, como dizia a Hannah, era: “ver o horror que é, pra termos ainda mais vontade de acabar com essas fronteiras! As duas cidades são motivo de disputa entre a Espanha e o Marrocos, além de terem muros, cercas, grades, arames farpados e todos os apetrechos de segurança pra manter os “indesejados” do lado de fora da Europa. São também a porta de entrada na Europa para muitos imigrantes da África subsaariana, que muitas vezes mendigam no lado marroquino enquanto não encontram uma maneira de cruzar pro outro lado.

De manhã cedo pegamos um trem para Assilah, onde faríamos uma rápida conexão para Tetouan (ou Tetuen, ou Tetuane, pode escolher). Gente, esse trem tava um GEEEEEEELO (até mesmo pra mim) e parecia que não iamos sobreviver às 3 horas de viagem… quase não levei roupas mais quentinhas, já que em teoria era o começo da primavera e não tinha previsão de nenhuma frente fria na região. Sobrevivemos e, de lá pra Ceuta é bem pertinho, mas pra economizar preferimos passar a noite por lá, já que o dirham ainda ta compensando mais que o euro e também queríamos conhecer a cidade. A Hannah tava toda atolada com burocracias da vida dela, coitada, mas ainda assim conseguimos um tempo pra visitar a medina, a cidade nova e aproveitar um festival de cinema. Assistimos um filme libanês – de graça – no Instituto Francês, o filme até parecia interessante, mas era um pouco monótono e estávamos tão cansados da viagem que terminamos dormindo.

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Medina de Tetouan

Diferente de Tânger, Tetouen é bem “norte”, o que significa que vai ser mais difícil encontrar pessoas que falem francês, enquanto que o espanhol… o cara do Dar (são uma espécie de casarão com um pátio no meio) onde nos hospedamos só falava com a gente em espanhol, a Hannah ainda falou “mas gente, me enganaram dizendo que eu ia me virar com o francês aqui no Marrocos, to tendo que resgatar meu portunhol!”. Eles eram super simpáticos, tinham uns gatinhos lindos e ainda nos ofereceram comida! A cidade é linda, fica bem próxima ao mar e entre montanhas, além de ser mais barato e bem menos turística que Tanger ou Rabat.

No dia seguinte tínhamos planejado ir de manhã pra Ceuta, mas a Hannah tinha uns paranauês pra resolver, então só conseguimos sair lá pras 13/14 horas. Pegamos um taxi coletivo – que custou 15 DH (ou R$ 5) por pessoa – e em 45min estávamos na fronteira. Esse lugar era muito estranho, meus amigos que visitaram não me descreveram muito bem como era. Assim, Ceuta não é um destino super turístico, mas como a maioria dos alunos intercambistas na minha universidade tem status de turista (como eu), precisamos sair do Marrocos no máximo a cada 90 dias. Ceuta é o local mais fácil pra se sair do Marrocos e poder permanecer de forma regular.

Começamos a andar e um carinha veio correndo em nossa direção oferecendo os formulários de saída do Marrocos, cobrando algum dinheiro, claro. Eu já sabia que acontece isso por lá, e claro que recusamos pagar por algo que deveria ser de graça, né! O fato é que estávamos andando pro lugar errado e ele apontou para a entrada. Na real ficamos meio sem saber o que fazer, porque ele apontou pra umas pessoas amontoadas em frente a um policial, sendo que tipo elas tavam apenas paradas ali, não diziam nem faziam nada. Nos amontoamos também, achando que tinha que esperar alguma coisa ali também, né. Foi quando nos disseram: “vocês não precisam ficar aqui, vocês são diferentes!”. Situação bem escrota, mas o fato é que na hora o policial nos deixou passar, mas só nós, os outros marroquinos continuaram amontoados.

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Caminho para o controle de passaporte

Em meio à grades, andamos mais um pouco e chegamos na fila da imigração marroquina. Carimbamos a saída do Marrocos e continuamos andando com a sensação de estar num curral. Foi quando, novamente, chegamos num amontoado de marroquinos. Eu peguei meu celular e comecei a tirar fotos daquilo, com uma cara de “wtf???!!!”, ai a Hannah: “Daniel, pelo amor de deus, não me faz ser presa aqui!”.

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Pessoas amontoadas

Nos sentindo muito mal, levantamos nossos passaportes e alas se abriram novamente. Eu estou acostumado com ter uma série de privilégios no Marrocos, por ser estrangeiro, mas dessa vez extrapolava todos os limites do aceitável, né! Uma sensação horrível, parece que é tudo pensado pra te tornar o mais degradante, o mais indigno possível, deixando bem evidente que você não é desejável para a Europa.

Passamos dali e, novamente não havia ninguém… passamos por um raio x onde o policial espanhol nem olhou na nossa cara e, quando nos demos conta tudo estava em castellano. Entramos na Espanha sem passar por controle de passaporte, sem ninguém nos pedir documento algum, nada! Enquanto isso, tem gente arriscando a vida em barco pra conseguir cruzar o mediterrâneo. Perguntei pra um policial se era necessário carimbar o passaporte e ele disse: “sei lá, volta lá no controle e pergunta”. IMG_0195Tipo, se você que trabalha no controle de fronteira não sabe, então quem deveria saber??? Voltamos e era uma janelinha fechada que tivemos que bater e perguntar, dai o cara disse que não sabia se teríamos algum problema pra voltar ao Marrocos sem o carimbo, mas que se quiséssemos ele podia carimbar (oi???), na dúvida carimbamos.Legal é que eles trabalham ali na fronteira e não se comunicam, né. A Hannah não queria carimbar, mas eu queria, então o policial meio que ficou horas segurando o carimbo em cima dos nossos passaportes com uma cara de “carimbo ou não carimbo???”.

Ceuta é micro, então caminhamos em direção ao centro, o que demorou uns 30/40 minutos. Encontramos um McDonald’s, usamos seu wi-fi, depois caminhamos mais um pouco, compramos algo num supermercado e no entardecer voltamos para a fronteira. Achamos a cidade com um clima super esquisito e as pessoas super antipáticas… É espanha, os preços são todos em euro, os queijos e vinhos são baratos, mas as pessoas tem cara de marroquinas, a arquitetura é meio misturada, a comida, etc.

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O outro lado da fronteira: Ceuta

Na saída, mais coisas estranhas. Primeiro tínhamos que fazer a saída da Espanha, mas também não tinha controle de passaporte. Um policial nos disse pra irmos para uma das cabines por onde passam os veículos, foi quando uma família marroquina chegou (dentro de um carro) e o policial de fronteira entregou 4 passaportes pra ele. Eu e a Hannah ficamos nos olhando com uma cara de: “gente, que merda é essa?!”. Carimbamos nossa saída e entramos no “curral” pra fazer os procedimentos de entrada no Marrocos. Como Ceuta meio que é uma cidade sem impostos, muitos marroquinos vão pra fazer compras pra revender, então nessa hora tinha tipo gente trazendo pneu, comida, brinquedos e tudo o que você puder imaginar. Vimos até um cara jogando pneu do outro lado da grade e indo embora tranquilamente sem passar por nenhum controle.

Novamente um carinha aleatório queria nos cobrar pelo formulário de entrada, mas claro que recusamos. Continuamos andando, mas não vimos onde poderíamos conseguir um, até que na própria imigração o policial nos deu um de graça. A Hannah que ficou: “o que eu boto em profissão??” hahaha. Ela escreveu “Ciência Política”, dai o carinha perguntou “o que é isso? não to entendendo!”. Dai ela respondeu: “ah, é que eu sou formada em Ciências Políticas, rs”. Enfim, entramos no Marrocos e na própria fronteira pegamos um coletivo para Tânger.

Dormimos a viagem toda e chegamos de noite, foi quando a Hannah disse: “eu tinha uma visão do Marrocos antes de vir, daí eu dormi de Ceuta até aqui e quando acordei tinha um Hilton enorme e iluminado na minha frente!”. Sim, Tânger é mais modernosa mesmo. No dia seguinte peguei o primeiro trem de volta pra Rabat, já que eu tinha que apresentar um trabalho ainda no mesmo dia, rs. A Hannah ficou mais tempo no norte, aproveitando para visitar Tânger e Assilah.

À toute

 

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